Mensagens apreendidas no celular do ex-banqueiro mostram articulação para incluir Pedro Gonet em viagem custeada pelo grupo de Daniel Vorcaro; evento estava previsto para 2025, mas acabou cancelado
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro indicam que o ex-controlador do Banco Master autorizou o custeio da viagem de Pedro Henrique de Moura Gonet Branco, filho do procurador-geral da República, Paulo Gonet, a Londres.
As informações constam de relatório produzido pela PF a partir da análise do aparelho de Vorcaro e que teve o sigilo levantado nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator das investigações relacionadas ao caso Banco Master.
Segundo os documentos, a viagem estava relacionada a um fórum jurídico que seria realizado em Londres em 2025, com participação de autoridades, empresários e representantes do meio jurídico. O evento, entretanto, acabou não sendo realizado.
Pedido teria sido intermediado por advogado
De acordo com as mensagens analisadas pela PF, a aproximação entre Paulo Gonet e Vorcaro ocorreu, em parte, por intermédio do advogado Ciro Soares, que já havia atuado na defesa do Banco Master.
Em março de 2025, Soares enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia ao lado de Gonet e escreveu que o procurador-geral queria falar com o banqueiro.
Na sequência, foram registradas quatro ligações entre os telefones utilizados por Vorcaro e Soares. As chamadas duraram entre 17 segundos e 3 minutos e 49 segundos. O relatório da PF não esclarece se Gonet participou diretamente dessas ligações nem qual foi o conteúdo das conversas.
Pouco depois, mensagens atribuídas a Gonet foram encaminhadas por Soares a Vorcaro. Em uma delas, o procurador-geral teria manifestado entusiasmo com a viagem a Londres e feito referência a charuto e ao uísque Macallan.
“Gonet perguntou se o filho dele pode ir”
É nesse contexto que aparece a referência à viagem de Pedro Gonet.
Segundo o relatório da PF, Ciro Soares informou a Vorcaro que Gonet havia perguntado se o filho poderia viajar com o grupo para Londres.
A resposta atribuída a Vorcaro foi direta:
“Óbvio, né?”
Posteriormente, uma funcionária responsável pela organização do evento consultou o banqueiro sobre os convidados que poderiam viajar com todas as despesas pagas pela organização.
Vorcaro não aprovou integralmente a lista apresentada, mas autorizou especificamente as despesas de Pedro Gonet e Ciro Soares.
Em outro diálogo, já em junho de 2025, Soares voltou a perguntar se Pedro poderia viajar com o grupo.
A resposta de Vorcaro, segundo o relatório, foi novamente afirmativa.
Evento era financiado pelo Banco Master
O fórum jurídico seria realizado em Londres e tinha financiamento relacionado ao Banco Master.
As mensagens analisadas pela PF mostram que a organização discutia a participação de diferentes autoridades e personalidades do meio jurídico e político.
Além de Paulo Gonet, aparecem nas conversas referências a ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, assim como ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O próprio Andrei Rodrigues teria sido convidado para o evento por intermédio do ex-ministro Fábio Faria. Segundo Faria, ele foi consultado sobre o convite.
PF investiga estratégia de aproximação com autoridades
O episódio ganha relevância dentro da investigação porque, segundo informações atribuídas ao relatório da Polícia Federal, uma das estratégias analisadas pelos investigadores seria a tentativa de Vorcaro de estabelecer relações de proximidade com autoridades e pessoas influentes.
A hipótese investigada é que esses relacionamentos poderiam posteriormente ser utilizados para facilitar interesses relacionados a investigações, negócios ou questões envolvendo o Banco Master.
Essa, porém, é uma linha investigativa e não significa que a viagem de Pedro Gonet, isoladamente, tenha representado alguma irregularidade ou que tenha ocorrido qualquer contrapartida.
A PF ainda precisa estabelecer se houve algum benefício concreto decorrente dessas relações.
Gonet não se manifestou
Procurado pela imprensa, Paulo Gonet não apresentou manifestação sobre as mensagens divulgadas.
Ciro Soares, por sua vez, afirmou que não havia segredo na lista de convidados do seminário e argumentou que os nomes dos participantes constavam de documentos e listas relacionadas ao evento.
O advogado também destacou que o fórum não chegou a ser realizado e afirmou não haver ilegalidade em convidar empresários, advogados, administradores ou palestrantes para participar de seminários.
Relação com o caso Moraes
A revelação envolvendo o filho de Gonet surge no mesmo momento em que documentos da PF também expõem uma série de mensagens relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes e a Daniel Vorcaro.
O material tornado público por decisão de André Mendonça apresenta contatos entre Vorcaro e diferentes autoridades e pessoas próximas ao poder público.
No caso específico de Gonet, a PF também identificou mensagens em que Vorcaro teria buscado auxílio de interlocutores identificados como “Andrei e Paulo”. Os investigadores levantaram a hipótese de que “Andrei” seria Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e “Paulo”, o procurador-geral da República.
Mendonça determinou que a PGR se manifeste sobre esses elementos no prazo de cinco dias.
O que as mensagens comprovam — e o que ainda precisa ser investigado
As mensagens divulgadas demonstram, segundo o relatório da PF, que houve articulação para incluir Pedro Gonet na viagem e autorização de Vorcaro para o pagamento das despesas.
Elas não comprovam, por si só, que Paulo Gonet tenha cometido alguma irregularidade ou que tenha oferecido qualquer vantagem ao banqueiro em troca do custeio.
Também não está demonstrado que Pedro Gonet tenha efetivamente realizado a viagem ou recebido os valores, embora outras reportagens indiquem que ele teria integrado o grupo que esteve em Londres em março de 2025.
O ponto central da investigação será determinar qual era a natureza da relação entre Vorcaro e autoridades públicas e se houve alguma contrapartida associada aos benefícios oferecidos pelo banqueiro.
Por enquanto, o episódio acrescenta mais uma peça ao complexo quebra-cabeça do caso Banco Master e amplia o alcance das investigações sobre a rede de contatos mantida por Daniel Vorcaro antes da liquidação da instituição.
