Em uma manobra desesperada para estancar o desgaste de uma corte desgovernada por monocratas, o presidente do STF tenta colocar ordem na casa, mas a pergunta que ecoa nos porões de Brasília continua a mesma: tudo isso terminará em mais uma pizza institucional?
Brasília (DF) — O Supremo Tribunal Federal chegou ao seu momento mais crítico e vergonhoso de autovergonha institucional. O que assistimos nos últimos dias não foi o funcionamento regular de uma Suprema Corte, mas sim um verdadeiro vale-tudo entre gabinetes, onde ministros operam como senhores feudais intocáveis, ignorando leis, o colegiado e o bom senso em nome de projetos de poder e revanchismos explícitos.
Nesse cenário de terra arrasada, a tentativa tardia do ministro Edson Fachin de tentar retomar o controle do tribunal — freando os arroubos cruzados de André Mendonça e Flávio Dino e impondo um revés histórico e acachapante ao homem forte da corte, Alexandre de Moraes — soa tanto como um alívio cívico quanto como um atestado de falência sistêmica.
A bem da verdade, o que provocou esse terremoto foi o choque de caprichos que transformou o plenário em um circo de horrores jurídicos. De um lado, André Mendonça resolveu brincar com fogo ao afastar a cúpula da Polícia Federal em investigações sensíveis; de outro, Flávio Dino — agindo com a agilidade política de quem nunca largou o palanque partidário — cassou os efeitos da restrição por meio de uma canetada expressa, devolvendo Andrei Rodrigues e Leandro Almada aos cargos para garantir o controle das apurações de seu interesse.
O que se viu foi a desmoralização pública da Justiça brasileira, partida ao meio por uma “guerra de liminares” onde o rito processual virou pó e a Constituição passou a ser interpretada ao sabor do humor matinal de cada toga.
E é justamente aí que entra o dado mais sintomático e explosivo desse xadrez: a rasteira regimental aplicada em Alexandre de Moraes. Ao determinar que qualquer procedimento de investigação ou apuração envolvendo ministros passe obrigatoriamente pelo crivo da Presidência da Corte e ao atrair a celeuma para o Plenário físico, Fachin desferiu um golpe cirúrgico na lógica do inquérito eterno e sem controle que Moraes opera há anos a fio como uma capitania hereditária. Por muito tempo, o gabinete de Moraes funcionou como um tribunal de exceção dentro do próprio STF, blindado contra qualquer contestação. A decisão de Fachin, ainda que cautelosa e tardia, expõe a ferida exposta: o poder imperial de Moraes começou a incomodar até mesmo os seus pares, acuados pelo risco de colapso total da credibilidade do Judiciário perante a opinião pública.
Mas sejamos francos e mantenhamos os pés no chão da realidade brasileira. Diante de tamanho espetáculo de desordem institucional, a grande interrogação que ecoa nas ruas, nos escritórios de advocacia e nos corredores do Congresso Nacional não é sobre a sofisticação da tese jurídica de Fachin. A pergunta de um milhão de dólares é bem mais direta, cínica e realista: tudo isso vai acabar em pizza?
A história recente da República nos ensina que, quando a cúpula do poder se desmancha em brigas intestinas, o arranjo de cúpula costuma prevalecer para salvar a pele de todos os envolvidos. Os ministros brigam, expõem as vísceras da corte, fazem discursos pomposos sobre a democracia, mas na hora H o corporativismo fala mais alto. A turma da toga tem pavor de admitir erros públicos profundos, pois sabe que isso abriria a porteira para uma cobrança implacável da sociedade e do Parlamento.
Fachin tentou colocar o gênio de volta à lâmpada ao apelar para a centralidade da Presidência e ao tentar devolver o protagonismo ao Plenário. Contudo, o estrago já está feito. A máscara caiu, a fragilidade de um tribunal transformado em arena político-partidária está nua e crua para quem quiser ver. Se essa tentativa de arrastão moral vai colar ou se não passa de mais um capítulo encenado para aliviar a pressão antes de um grande acordo de compadrio, só os próximos dias dirão. Mas o cidadão brasileiro, esmagado por impostos e refém de um ativismo judicial descontrolado, já aprendeu a não apostar fichas na decência dos donos do poder. Resta saber se o Supremo terá o mínimo de decência para não terminar a fatura no forno da impunidade.
