Levantamento revela paradoxo na opinião pública: maioria considera o Supremo essencial para a democracia, mas cresce a percepção de excesso de poder e uma parcela significativa defende o afastamento de ministros
Brasília — 13 de setembro de 2026
A crise que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF) encontra respaldo em parte significativa da percepção da população brasileira. Pesquisa Datafolha divulgada neste fim de semana mostra que 76% dos brasileiros consideram que os ministros do Supremo têm poder excessivo. Ao mesmo tempo, 71% afirmam que a Corte é essencial para a democracia, revelando uma avaliação marcada por posições aparentemente contraditórias.
O levantamento ocorre em meio ao agravamento da crise institucional envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça e aos desdobramentos das investigações relacionadas ao Banco Master e ao empresário Daniel Vorcaro. A disputa entre integrantes da Corte ganhou novas dimensões nas últimas semanas, especialmente após a divulgação de documentos e mensagens relacionados ao caso.
A percepção de excesso de poder não significa, necessariamente, rejeição à existência do Supremo. Os dados mostram justamente o contrário: embora uma parcela expressiva dos brasileiros critique a concentração de poder atribuída aos ministros, a maioria continua considerando o STF uma instituição necessária para o funcionamento da democracia brasileira.
O cenário, entretanto, muda quando os entrevistados são questionados especificamente sobre os ministros envolvidos na atual crise.
Divisão sobre afastamento de Moraes e Mendonça
De acordo com o levantamento, 34% dos entrevistados defendem o afastamento temporário de Alexandre de Moraes, enquanto 37% apoiam o afastamento temporário de André Mendonça.
A pesquisa também identificou posições mais severas em relação a Moraes. 28% dos entrevistados afirmam apoiar o impeachment do ministro, enquanto outros 13% defendem que ele deveria renunciar ao cargo.
Os números mostram que o desgaste não está concentrado exclusivamente em um dos lados do conflito. Mendonça também enfrenta resistência de parte da população, embora os percentuais relativos ao afastamento e ao impeachment apresentem diferenças em relação aos registrados para Moraes.
A percepção pública ocorre justamente enquanto os dois ministros ocupam posições distintas em processos relacionados ao caso Banco Master e à chamada Operação Compliance Zero.
Crise coloca imagem da Corte sob pressão
A divulgação dos números ocorre em um dos momentos mais delicados da história recente do Supremo. A Corte enfrenta uma disputa interna que envolve decisões, relatorias, documentos sigilosos e o acesso ao material extraído do celular de Daniel Vorcaro.
O presidente do STF, Edson Fachin, assumiu uma posição central na tentativa de conduzir institucionalmente o episódio. Entre as questões em discussão está a necessidade de que os ministros tenham acesso ao material relevante antes de julgamentos relacionados ao caso.
A Polícia Federal informou que mantém sob sua custódia o material original extraído do celular de Vorcaro e afirmou possuir condições técnicas para disponibilizar cópias integrais aos ministros. A informação foi prestada justamente em meio aos questionamentos sobre o acesso ao conteúdo.
A crise também chegou ao plenário do Supremo. Está previsto para terça-feira (15) um julgamento relacionado ao processo que envolve Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Outro procedimento envolvendo André Mendonça deverá ser analisado posteriormente.
Importância institucional x críticas aos ministros
A combinação dos números do Datafolha revela um dos aspectos mais relevantes da atual crise: a insatisfação com a atuação dos ministros não se traduz automaticamente em rejeição ao Supremo como instituição.
Enquanto 76% avaliam que os ministros possuem poder excessivo, 71% consideram a Corte essencial para a democracia. O resultado sugere que parte dos brasileiros diferencia a importância do STF enquanto instituição constitucional da avaliação sobre a atuação individual de seus integrantes.
Essa distinção pode se tornar particularmente importante caso os conflitos entre os ministros continuem avançando para o plenário e ganhem maior exposição pública.
O debate sobre os limites da atuação do Supremo também deverá permanecer no centro da discussão política durante o período eleitoral. Setores da oposição vêm utilizando a crise para defender mudanças na relação entre os Poderes, enquanto aliados do governo e defensores da Corte sustentam a importância de preservar a independência do Judiciário.
Crise ainda não altera intenção de voto da maioria
Apesar da repercussão política, a pesquisa indica que a crise ainda não provocou uma mudança generalizada na intenção de voto dos brasileiros.
A maioria dos entrevistados afirma que as denúncias e controvérsias envolvendo os ministros do Supremo não alteraram sua escolha eleitoral. O dado indica que, pelo menos até o momento, o impacto da crise sobre o comportamento do eleitor permanece limitado.
O cenário, porém, poderá mudar conforme novos documentos sejam divulgados, decisões sejam tomadas pelo STF e o caso Banco Master avance.
Com julgamentos previstos para os próximos dias e a disputa entre ministros ainda sem uma solução definitiva, o Supremo entra em uma semana decisiva. O resultado das próximas sessões poderá influenciar não apenas o andamento dos processos, mas também a percepção pública sobre a independência, os limites e o papel institucional da Corte.
