BRASÍLIA – O trânsito livre de lobistas em gabinetes de alta cúpula voltou a colocar em xeque a transparência das relações de poder em Brasília. Roberta Luchsinger, figura próxima a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é o centro de uma série de visitas que expõem brechas gritantes no controle de acesso e na prestação de contas do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), comandado pelo ministro Wellington Dias.
Entre 2023 e 2024, Luchsinger frequentou a pasta ao menos 16 vezes. Mais do que a frequência, chama a atenção o perfil de suas companhias. Logo no início do governo, em janeiro de 2023, a lobista ingressou no ministério ao lado de Claudinei Quaresemin — sobrinho do ex-governador do Tocantins Mauro Carlesse e preso em 2024 pela Polícia Federal na Operação Overclean, sob acusação de operar propinas e fraudar licitações. A dupla declarou na portaria que se reuniria com o próprio ministro e com o então secretário-executivo, Rannier Ciriaco. Um mês depois, lá estavam eles novamente, desta vez acompanhados de Christopher Jorge Saraiva Amorim, ex-assessor do senador Ciro Nogueira.
Apesar da gravidade dos temas e do perfil dos visitantes, nenhum desses encontros constou na agenda oficial das autoridades. O MDS tentou se eximir justificando que as visitas “não foram previamente agendadas” e que, por isso, não integraram o sistema e-Agendas. A explicação ignora um decreto de 2021 que exige, expressamente, o registro a posteriori de reuniões com autoridades públicas — uma manobra que contorna a obrigatoriedade da transparência.
A teia de interesses envolve cifras milionárias. Luchsinger, investigada pelo STF por suposta interferência em contratos públicos ao lado de Lulinha, recebeu R$ 150 mil da empresa 3Structure IT, do empresário Cleber Ribas de Oliveira. Coincidentemente ou não, o empresário também frequentou o MDS em 2024 — com direito a audiência com Wellington Dias — e viu sua empresa, detentora de R$ 81,2 milhões em contratos federais, fechar novos acordos com a pasta.
Enquanto defesas e o ministério alegam regularidade técnica e “prospecção de clientes”, o enredo desenha o retrato clássico do pragmatismo de bastidor: encontros fora da agenda formal, investigados por corrupção circulando livremente e transações financeiras paralelas com prestadores de serviço do próprio governo.
