Manuscrito apreendido na casa do senador tem nomes associados pela Polícia Federal a parlamentares de diferentes estados; entre eles estão Doutor Luizinho e Altineu Côrtes, que voltam às urnas pelo Rio de Janeiro em 2026
Brasília — 13 de setembro de 2026
Uma lista manuscrita encontrada pela Polícia Federal dentro da churrasqueira da residência do senador Ciro Nogueira (PP-PI), em Brasília, colocou novamente no centro das atenções nomes de deputados que terão seus destinos políticos decididos nas urnas em outubro. Entre os parlamentares que aparecem associados pela investigação ao documento estão dois nomes com forte atuação no Rio de Janeiro: Doutor Luizinho (PP) e Altineu Côrtes (PL), ambos candidatos novamente à Câmara dos Deputados pelo estado nas eleições de 2026.
O documento foi apreendido em 7 de maio, durante a quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga desdobramentos relacionados ao caso Banco Master. O conteúdo tornou-se público após o levantamento do sigilo de documentos da investigação.
Segundo o relatório policial, os agentes encontraram na churrasqueira uma série de papéis que, de acordo com o depoimento de uma funcionária da residência, teriam sido entregues pelo próprio Ciro Nogueira para serem queimados. Conforme o relato registrado pela PF, os documentos seriam antigos ou não teriam serventia. A funcionária, entretanto, não teria conseguido destruí-los antes da chegada dos investigadores.
Entre os papéis estava uma anotação intitulada “Câmara”, seguida de nove primeiros nomes e números. A PF avalia que os números podem representar valores, mas ressalta que o significado das anotações ainda precisa ser esclarecido.
A relação encontrada pelos investigadores registra:
Arthur — 40
Hugo — 10
Elmar — 10
Luizinho — 10
Adolfo — 10
Isnaldo — 10
Diego — 5
Altineu — 5
Netinho — 5
A própria Polícia Federal associou, de forma preliminar, alguns dos nomes a parlamentares conhecidos. “Arthur” foi relacionado a Arthur Lira (PP-AL); “Hugo”, ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB); “Elmar”, a Elmar Nascimento (União-BA); “Luizinho”, a Doutor Luizinho (PP-RJ); “Adolfo”, a Adolfo Viana (PSDB-BA); e “Isnaldo”, a Isnaldo Bulhões (MDB-AL). Os nomes “Diego”, “Altineu” e “Netinho” aparecem no documento, mas não tiveram identificação definitiva pela PF no relatório citado.
Rio de Janeiro ganha destaque na lista
O nome que mais chama atenção para o eleitor fluminense é “Luizinho”, associado pela PF ao deputado federal Doutor Luizinho, que representa o Rio de Janeiro na Câmara dos Deputados.
Luiz Antonio de Souza Teixeira Júnior, conhecido como Doutor Luizinho, é deputado federal pelo PP e está atualmente no exercício do mandato iniciado em 2023. Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ele construiu sua carreira política no estado e voltou a aparecer no cenário eleitoral de 2026 como um dos nomes que disputam novamente uma cadeira na Câmara.
A associação feita pela PF, contudo, não significa que o deputado tenha sido acusado de receber valores ou de praticar qualquer irregularidade relacionada à anotação. O documento contém apenas o primeiro nome “Luizinho”, e os investigadores utilizaram a expressão “provavelmente” ao fazer a correspondência com o parlamentar.
Essa ressalva é importante porque o significado dos números também não foi comprovado. A PF considera que podem ser valores, mas ainda busca esclarecer a origem, finalidade e contexto da anotação.
Altineu Côrtes também aparece entre os nomes
Outro nome fluminense que merece atenção é “Altineu”, associado ao deputado federal Altineu Côrtes (PL-RJ).
Natural de Niterói, Altineu Côrtes exerce atualmente mandato na Câmara dos Deputados e permanece ativo na política do Rio. Dados oficiais da Câmara confirmam que ele é deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro no período legislativo 2023-2027. Informações eleitorais disponíveis para 2026 apontam sua candidatura novamente ao cargo de deputado federal pelo estado.
Assim como ocorre com Doutor Luizinho, porém, a menção na lista não equivale a uma acusação formal contra Altineu Côrtes. O documento registra apenas o primeiro nome “Altineu”, e a identificação definitiva ainda depende da investigação.
O número associado ao nome é 5. Segundo a PF, os números encontrados ao lado dos nomes são “provavelmente” valores, mas não há, até o momento, comprovação pública sobre o que representam ou se estão efetivamente relacionados a pagamentos.
E o nome “Netinho”?
A anotação também registra o nome “Netinho — 5”, o que naturalmente chama a atenção no cenário político do Rio de Janeiro.
Entretanto, a cautela é ainda maior nesse caso. O relatório divulgado pela PF não identifica “Netinho” como determinado parlamentar fluminense. Por isso, não é possível afirmar, com base no documento, que a referência seja ao prefeito de Duque de Caxias, Netinho Reis (MDB).
Netinho Reis é uma figura política relevante da Baixada Fluminense e integra uma família tradicional da política de Duque de Caxias. Atualmente, porém, ele exerce o cargo de prefeito do município, enquanto seu grupo político apresenta outros nomes para a disputa eleitoral de 2026.
A simples coincidência entre o primeiro nome registrado no documento e o nome público do prefeito não é suficiente para estabelecer uma identificação. A própria PF deixou alguns nomes da relação sem identificação definitiva.
Parlamentares continuam na disputa eleitoral
O episódio ganha uma dimensão política ainda maior porque ocorre justamente durante o período eleitoral de 2026.
Doutor Luizinho e Altineu Côrtes estão novamente no jogo eleitoral do Rio de Janeiro. Os dois são deputados federais em exercício e buscam permanecer na Câmara, o que faz com que qualquer nova informação relacionada aos seus nomes possa ter repercussão direta sobre suas campanhas.
No caso de Doutor Luizinho, além da candidatura à Câmara, seu nome chegou a ser considerado em articulações políticas para uma eventual disputa majoritária no estado. O deputado tem presença política especialmente na Baixada Fluminense e em outras regiões do Rio.
Altineu Côrtes, por sua vez, ocupa posição de destaque dentro do PL fluminense e também participa das articulações políticas do partido no estado. Sua candidatura novamente à Câmara mantém seu nome entre os principais integrantes da bancada fluminense que buscam renovar o mandato.
Documento ainda precisa ser esclarecido
Apesar da repercussão política, o conteúdo encontrado pela PF ainda está longe de representar, por si só, uma prova de repasses ilegais.
O documento é manuscrito, contém apenas primeiros nomes e números e foi encontrado em meio a outros papéis que estavam na churrasqueira da residência de Ciro Nogueira. A interpretação dos investigadores é preliminar.
A PF considera que os números podem representar valores, mas não esclareceu publicamente a unidade monetária, a finalidade das quantias ou se houve efetivamente algum pagamento relacionado aos nomes.
Também não está estabelecido, apenas pela existência da lista, que os parlamentares mencionados tenham recebido qualquer quantia ou tenham participado de eventual esquema investigado.
O caso está inserido nas investigações relacionadas ao Banco Master, que passaram a ganhar ainda mais repercussão depois que documentos anteriormente sigilosos foram disponibilizados no âmbito do Supremo Tribunal Federal.
Reações e próximos passos
Alguns dos políticos citados na documentação já reagiram. A assessoria de Arthur Lira afirmou que o ex-presidente da Câmara desconhece a anotação. Elmar Nascimento negou relação com o registro e classificou o documento como apócrifo. A assessoria de Hugo Motta informou que ele não comentaria o assunto.
Até o momento, as informações públicas consultadas não indicam uma acusação formal da Polícia Federal contra Doutor Luizinho ou Altineu Côrtes baseada especificamente nessa lista.
A partir da divulgação do documento, entretanto, a tendência é que os investigadores aprofundem a análise sobre a origem do manuscrito, o significado dos números e a identidade de todos os nomes registrados.
Para o eleitor do Rio de Janeiro, o caso ganha uma particular importância: dois parlamentares associados pela PF a nomes da lista estarão novamente submetidos ao voto popular em 2026.
O esclarecimento sobre o significado da anotação poderá, portanto, ter repercussão não apenas jurídica, mas também eleitoral, especialmente em um estado onde a disputa pelas cadeiras da Câmara dos Deputados promete ser uma das mais concorridas do país.
