Quem assiste aos telejornais ou passeia pelos centros comerciais ultimamente pode ter a falsa impressão de que a roda da economia brasileira continua girando a todo vapor. Mas a verdade é que o castelo de cartas de muita empresa “campeã nacional” desabou. A moda agora entre as gigantes do varejo, do empresariado e até do setor industrial pesado não é comemorar o balanço positivo, mas sim bater à porta da Justiça pedindo socorro.

Afinal, o que está acontecendo com os intocáveis do mercado?

A velha desculpa da chuva

Como de praxe, os discursos oficiais colocam a culpa de tudo nas costas do “cenário macroeconômico global” e na taxa de juros. É a narrativa perfeita para tirar o foco da incompetência de gestão. Afinal, é muito mais fácil culpar o Banco Central ou o clima do que admitir que houve uma farra de crédito, expansão artificial a base de subsídios estatais e um delírio corporativo que ignorou as leis básicas da gravidade econômica.

Durante anos, fomos obrigados a engolir a fábula dos “campeões nacionais” — empresas gigantescas escolhidas a dedo para receber favores de Brasília, dinheiro subsidiado de bancos públicos e proteção contra a concorrência. O resultado dessa engenharia centralizadora? Criou-se um ambiente onde o risco é privatizado para o lucro do dono, mas o prejuízo, quando a casa cai, é socializado.

Enquanto o pequeno empresário — aquele que rala de sol a sol, gera emprego real e paga seus impostos sem nenhum padrinho político — sofre para manter as portas abertas com uma carga tributária sufocante, as corporações graúdas tropeçam nas próprias pernas e recorrem a manobras jurídicas para congelar dívidas bilionárias com credores e fornecedores.

Onde até os colossos tropeçam

O sintoma mais claro dessa sangria sistêmica pode ser visto no desfile recente de marcas e colossos corporativos que precisaram buscar refúgio na Justiça. No varejo, nomes de peso como o Grupo Casas Bahia acumularam um passivo de cerca de R$ 17,3 bilhões, precisando enxugar centenas de lojas e cortar postos de trabalho para tentar estancar o fluxo de caixa. Redes tradicionais de móveis e decoração, como Marabraz e Tok&Stok, também sucumbiram à retração do poder de compra e ao custo proibitivo do crédito, refletindo a asfixia do consumo de bens duráveis.

Mas o fundo do poço corporativo ganhou um capítulo estratosférico com a Braskem. A gigante petroquímica — historicamente orbitada por interesses estatais e fundos de grande porte — precisou protocolar um pedido de recuperação extrajudicial para tentar reorganizar uma dívida monumental na casa dos R$ 54 bilhões (cerca de US$ 10,9 bilhões). Com o aval de credores e acionistas para tentar respirar por mais 90 dias de proteção judicial contra execuções, ver uma potência industrial desse porte engolida pelo próprio passivo escancara que o buraco do “Custo Brasil” é muito mais embaixo do que os otimistas de plantão admitem.

O peso do Estado nas costas

O cenário revela a falta de reformas estruturais de verdade. O Brasil continua sendo um país hostil a quem quer produzir: burocracia delirante, insegurança jurídica galopante, gasto público descontrolado que suga a poupança privada e um ambiente que espanta qualquer investidor sério.

Quando o governo gasta mais do que arrecada, a inflação corrói o poder de compra das famílias, o consumo trava, e a fatura sobra para o elo mais fraco.

No fim das contas, a derrocada dessas gigantes — seja no varejo de massa ou na grande indústria petroquímica — é o sintoma mais claro de um modelo econômico que mima os privilegiados do poder e asfixia quem realmente move a roda da nação. Se até quem tinha tapete vermelho estendido pelo Estado está pedindo arrego, fica o aviso: o problema não é falta de sorte, é o peso insustentável de um sistema que insiste em atrapalhar quem quer trabalhar.

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