Anotações no celular de Daniel Vorcaro revelam conhecimento prévio de bastidores no Banco Central e busca por interferência em apurações sigilosas.
BRASÍLIA – Relatórios de análise de dados produzidos pela Polícia Federal (PF) apontam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, tentou acionar as cúpulas da PF e do Ministério Público Federal (MPF) na tentativa de conter o avanço de apurações contra seus negócios.
Registros apreendidos no telefone celular do empresário revelam anotações nas quais ele orienta um interlocutor a procurar diretamente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O objetivo do contato seria evitar que equipes de fiscalização e investigação realizassem ações contra suas empresas.
As Anotações no Bloco de Notas
De acordo com as apurações dos investigadores, as mensagens foram redigidas por Vorcaro na função de bloco de notas de seu dispositivo móvel. A tática consistia em capturar a tela da anotação para enviá-la via aplicativo de mensagem com o recurso de visualização única habilitado, dificultando o rastreamento posterior e a identificação do destinatário final do texto.
Em uma das anotações analisadas, escrita antes de uma viagem do empresário ao exterior, Vorcaro mencionou vazamentos e pressões no âmbito do Banco Central (BC). Na sequência do texto, pediu a intervenção de seu interlocutor junto às chefias das instituições de controle:
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco”, anotou o empresário no registro analisado pela PF.
Vazamentos e Acesso a Informações do Banco Central
A Polícia Federal interpreta a menção a “ninguém de baixo” como uma tentativa deliberada de neutralizar o trabalho de delegados, peritos e procuradores de primeira instância que atuavam na linha de frente das apurações.
Os relatórios apontam ainda que o empresário demonstrava conhecimento prévio de bastidores e movimentações internas do órgão regulador do sistema financeiro. Nas anotações, Vorcaro registrou ter recebido “informações informais e em confidência” sobre reuniões, alertas de inconsistências e apurações sobre condutas dentro da autoridade monetária.
Desdobramentos e Contexto das Investigações
O monitoramento do dispositivo de Vorcaro faz parte do conjunto de provas colhidas no âmbito de apurações sobre o sistema financeiro. O empresário foi detido em novembro de 2025 no Aeroporto Internacional de Guarulhos no momento em que se preparava para embarcar em um voo internacional.
Para os investigadores da Polícia Federal, a sucessão de registros salvos e apagados do celular de Vorcaro reforça a hipótese de que o empresário buscava mapear operações iminentes, intervir em instâncias superiores e monitorar o fluxo de pareceres sigilosos que tramitavam em órgãos de controle e de fiscalização.
