Ministro amplia decisão anterior e libera 53 ações relacionadas ao caso Banco Master; investigação que envolve Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Mário Frias passa a ter documentos públicos
Brasília, 11 de setembro de 2026 — O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ampliou nesta sexta-feira (11) uma decisão anterior e determinou o levantamento do sigilo de 53 ações relacionadas ao caso Banco Master, incluindo a investigação conhecida como “Dark Horse”, que apura a origem e a movimentação de recursos destinados ao filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A nova decisão representa uma mudança em relação ao despacho divulgado na noite anterior, quando Mendonça havia retirado o sigilo de 15 procedimentos, mas mantido sob segredo justamente a investigação envolvendo Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o deputado Mário Frias. A alteração ocorreu depois de forte pressão dentro do próprio STF e de uma determinação do presidente da Corte, Edson Fachin, para que o sigilo de todo o caso fosse derrubado, salvo informações cuja exposição pudesse comprometer diligências ainda em andamento.
A primeira decisão de Mendonça havia sido tomada na quinta-feira (10), após solicitação de Fachin. Na ocasião, o ministro liberou documentos relacionados à investigação principal do Banco Master, ao relacionamento entre o banco e o BRB, ao vazamento de informações sigilosas, além de apurações envolvendo grupos conhecidos como “A Turma” e “Os Meninos” e uma estrutura de influenciadores que teria atuado na defesa dos interesses de Daniel Vorcaro. Também foram divulgados documentos referentes ao contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O “Dark Horse”, porém, ficou fora da primeira rodada de abertura.
A decisão provocou uma reação imediata. A Procuradoria-Geral da República apontou que a relação apresentada por Mendonça não contemplava todos os procedimentos relacionados à Operação Compliance Zero e afirmou que 18 ações ainda permaneciam sob sigilo. Alexandre de Moraes também pressionou pela divulgação integral dos documentos e acusou Mendonça de ter deixado de fora cerca de 180 itens. O relator negou a acusação e afirmou que não havia retenção deliberada de documentos, atribuindo a diferença à movimentação de peças entre processos e à classificação interna dos procedimentos. Diante do impasse, Fachin determinou que o levantamento fosse ampliado.
Foi nesse contexto que veio a nova decisão de Mendonça. Ao ampliar a abertura para 53 ações e incluir o “Dark Horse”, o ministro modificou o alcance do despacho anterior e retirou uma das principais zonas de sigilo que alimentavam a disputa dentro do Supremo. A investigação havia sido autorizada por Mendonça em julho, a pedido da Polícia Federal, para apurar suspeitas relacionadas ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Entre as hipóteses investigadas estão lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. A existência de uma investigação, entretanto, não significa que os investigados tenham sido considerados culpados ou que as suspeitas tenham sido comprovadas.
O nome de Flávio Bolsonaro ganhou destaque porque, segundo documentos divulgados no caso, ele teria negociado diretamente com Daniel Vorcaro recursos para a produção do filme. A Reuters informou que a investigação examina uma transferência de aproximadamente US$ 12 milhões feita por Vorcaro para um fundo ligado a Eduardo Bolsonaro, enquanto reportagens da imprensa brasileira apontaram negociações envolvendo valores ainda maiores. Flávio e Eduardo negam irregularidades e afirmam que os recursos destinados ao projeto eram privados. A nova abertura do “Dark Horse” poderá permitir que mais detalhes sobre essas transações sejam conhecidos publicamente. citeturn0news9turn0news14
A divulgação dos documentos também ocorre em meio à maior crise institucional envolvendo o caso Banco Master. Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, aparece no centro de uma investigação que apura suspeitas de fraudes bilionárias e possíveis relações com autoridades, empresários e operadores políticos. Entre os documentos já tornados públicos estão mensagens envolvendo Vorcaro e Alexandre de Moraes, além de informações sobre contratos do Banco Master com o escritório da esposa do ministro. Um dos contratos, segundo documentos divulgados, previa pagamentos de R$ 131 milhões ao longo de três anos por serviços de advocacia, compliance e consultoria estratégica perante órgãos públicos. O escritório de Viviane Barci de Moraes afirma que os serviços foram efetivamente prestados e nega irregularidades.
A disputa entre Mendonça e Moraes tornou-se outro capítulo do caso. Moraes questionou a condução das investigações e pediu que os documentos fossem integralmente disponibilizados aos demais ministros. Em resposta, Mendonça já havia determinado a divulgação de relatório da Polícia Federal contendo mensagens entre Moraes e Vorcaro. Segundo os documentos, o empresário teria procurado o ministro para tratar de assuntos relacionados às investigações e chegou a perguntar sobre a possibilidade de deixar o país antes de ser preso. As informações estão sendo analisadas no contexto da investigação e, por si só, não estabelecem crime ou favorecimento por parte de Moraes. citeturn0news23turn0search12
O episódio ganhou ainda mais importância porque Fachin marcou para a próxima terça-feira (15) uma sessão extraordinária do STF para tratar dos desdobramentos do caso e das acusações envolvendo Moraes. A PGR também pediu maior transparência sobre os procedimentos relacionados à Operação Compliance Zero, enquanto Cristiano Zanin solicitou acesso às mídias extraídas do celular de Vorcaro. O objetivo declarado é permitir que os ministros tenham acesso aos mesmos elementos antes da análise das questões envolvendo a atuação de Moraes e a condução das investigações.
A abertura do “Dark Horse” também aumenta o impacto político do caso. Flávio Bolsonaro aparece atualmente como um dos principais nomes da oposição na disputa presidencial e está tecnicamente próximo de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, segundo a pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira. A investigação, portanto, deixa de ser apenas uma questão jurídica e passa a ter potencial repercussão direta sobre a corrida eleitoral. Ao mesmo tempo, a divulgação dos documentos poderá atingir diferentes grupos políticos, já que as investigações do Banco Master também alcançam nomes de outros partidos e autoridades.
A nova decisão de Mendonça representa, assim, uma renovação e ampliação da decisão anterior sobre o sigilo. Na quinta-feira, 15 procedimentos haviam sido liberados, enquanto o “Dark Horse” permanecia fechado. Nesta sexta, após a determinação de Fachin e a pressão da PGR e de ministros do Supremo, o número foi ampliado para 53 ações, incluindo a investigação que envolve Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Mário Frias. A partir de agora, a expectativa se concentra no conteúdo que será efetivamente conhecido e nas eventuais novas conexões reveladas pelos documentos.
O caso Banco Master entra, portanto, em uma nova fase. A retirada do sigilo amplia o acesso público às investigações e poderá esclarecer as relações financeiras entre Daniel Vorcaro, os envolvidos no financiamento do filme “Dark Horse” e outras pessoas citadas nos documentos. Ao mesmo tempo, a crise interna no Supremo permanece aberta, com acusações cruzadas entre ministros, questionamentos sobre a condução das investigações e uma sessão extraordinária marcada para os próximos dias. O que vier a público a partir da nova decisão de Mendonça poderá ser determinante tanto para o futuro das investigações quanto para a dimensão política que o caso assumiu no cenário nacional.
